segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Nelson Rodrigues

amigo de infância

de Nelson Rodrigues

Quando soube que o Antunes

estava, de táxi, na porta, desceu para o avisar:

— Mas olha: eu estou assim, de pijama, e ainda vou tomar banho.

Antunes, fumando de piteira, entra, senta-se:

— Não faz mal. Eu espero. Mas chispa.

— Agüenta a mão.

O outro ficou, na sala, lendo jornal. Debaixo do chuveiro, esfregando-se briosamente,

Chagas perguntava a si mesmo: "Que será?" Tomou o banho e vestiu-se,

num tempo recorde. Antes de descer, já pronto, num terno branco, comentou para a

mulher, baixo: "Estou achando meio esquisito esse negócio do Antunes aparecer,

aqui, cedo. É alguma complicação!" Julinha fez um ar de nojo:

— Sabe que eu acho o Antunes tão chato!

— Que o quê! Ótimo sujeito! Meu amigo até debaixo d'água!

Mas Julinha, peremptória como são as mulheres nas suas antipatias, ainda

resmungou: "Um falso!" Cinco minutos depois, Chagas instalava-se no táxi do

Antunes, lado a lado com o seu maior amigo. Curiosíssimo, indaga:

— Qual é o drama?

o drama

Colocando outro cigarro na piteira, Antunes responde com uma pergunta:

— Confias na tua mulher?

— Como?

— Pergunto se confias na tua mulher.

Pálido, encarava Antunes. Pausa. Interpelou o amigo:

— Mas que palpite é esse? Por que essa pergunta?

Antunes não respondeu imediatamente. Com o dedo de mindinho, batia na

cinza do cigarro. Sereno, e metódico, começou:

— Bem. O negócio é o seguinte. Tu sabes que és meu do peito, não sabes?

— Toca o bonde.

Continuou:

— E eu sou um sujeito nessas condições: se há uma coisa que eu levo a sério,

na vida, é a amizade. Pra mim, o amigo está acima de tudo. Acima de dinheiro, de

mulher e outros bichos. E eu soube de um negócio e...

Trincando os dentes, Chagas exigiu:

—Desembucha.

E Antunes, implacável:

— Chagas, tudo me faz crer que tua mulher, que Julinha, te trai.

Durante uns dois, três minutos, houve um silêncio entre os dois. Chagas repetia

mentalmente: "Julinha me trai... Julinha me trai..." Súbito, vira-se para o amigo.

Está branco:

— Quero provas.

— Provas, como?

Repetiu, na sua cólera contida:

— Provas. Você acusa minha mulher. Muito bem. Deve ter provas. Onde

estão?

O outro parecia desconcertado:

— Mas, Chagas! É muito difícil provar essas coisas. Só se eu fosse olhar pelo

buraco da fechadura.

Chagas insistia, numa calma apavorante:

— Se você provar, muito bem. Mas se não provar, eu juro, por tudo, por essa

luz que me alumia, você está desgraçado comigo.

Quando saltaram, no mesmo lugar, porque trabalhavam no mesmo edifício,

Antunes suspirou:

— Escuta, Chagas. Você faça o que quiser. Cumpri meu dever e pronto.

os inimigos

Era o fim de uma amizade que durava, ao longo dos anos, desde a infância.

Chagas entrou no emprego doente. Pensava: "Devo estar com febre." Sentado na

cadeira giratória, procurava reconstituir, de cabeça, toda a sua vida conjugai. Numa

meditação ardente e obstinada, tentava lembrar-se de um gesto, de uma palavra, de

uma frase de Julinha que pudesse sugerir a existência de um amante. Sua memória,

porém, não a acusava de coisa alguma. Quatro anos depois do casamento, a pequena

era a mesma mulher, sempre igual a si mesma, duma ternura que não mudava. Na

hora do lanche, Chagas vira-se para um companheiro. Faz a confidência gratuita:

— Pela primeira vez, eu conheço o ódio. Pela primeira vez, eu sei o que é odiar.

E, de fato, odiava Antunes. Por outro lado, descobria que há no ódio mais

obstinação, mais exclusividade, mais fidelidade do que no amor. Só se pode odiar

uma pessoa. E Chagas pensava em Antunes, segundo a segundo, minuto a minuto.

Nessa tarde, saiu mais cedo e desceu ao andar onde o outro trabalhava. Sentou-se a

seu lado. Perguntou:

— Aquilo que tu me contaste. Tens certeza ou é desconfiança?

— Certeza.

— Absoluta?

— Absolutíssima.

Devia bastar. Mas Chagas teimou:

— Certeza como? Certeza por quê? Tu mesmo não disseste que, certeza,

nesses casos, só mesmo olhando pelo buraco da fechadura?

Antunes pôs-lhe a mão no ombro:

— Eu não olhei pelo buraco da fechadura, claro. Mas...

— Fala!

Baixou a voz:

— Mas vi, com meus próprios olhos, eu vi tua mulher entrando num lugar

assim, assim, no Leblon.

Chagas ergueu-se. Andou de um lado para outro. Sentou-se, outra vez. E quis

saber: "Explica uma coisa. Por que me contaste isso? Por quê?" O outro foi lacônico:

— Achei que era meu dever de amigo.

Desesperado, protestou:

— Dever como? Dever por quê, carambolas? Oh, tu não sabes que minha

mulher é tudo para mim, absolutamente tudo?

Antunes inclinou-se. Sem desfitá-lo, explicou:

— Eu não quis que bancasses o palhaço. Por isso contei.

a prova

E, então, a vida de Chagas mudou por completo. Não fazia a barba, não tomava

banho, não mudava a camisa. Perdera todo o capricho; ou, por outra, só caprichava

no desleixo. Tinha uma espécie de orgulho, de vaidade, de parecer um maltrapilho,

um miserável. Minha, impressionada, pedia: "Faz a barba, ao menos, criatura!" Ele

ria, amargo; respirava fundo:

— Há coisas mais importantes do que a barba!

Todos os dias, conversava com Antunes, embora o odiasse cada vez mais.

Uma tarde explodiu:

—Ah, se isso fosse uma calúnia, uma mentira tua, sórdida!... — soluçava: —

Eu te agradeceria, de joelhos, se tivesses mentido, se tivesses caluniado a minha

mulher!

O outro encarniçava-se:

— É verdade! Juro que é verdade! Quero que Deus me cegue se minto! Tens

que tirar esta mulher de tua vida! Não admito que um amigo meu banque o palhaço!

Rápido, Chagas levantou-se. Segurou o outro pelos dois braços e o sacudia:

"Eu só acredito vendo! Tua palavra não basta!" Sem medo, com uma determinação

de amigo fanático, Antunes replicou:

— Eu incumbi uma pessoa de acompanhar os passos de tua mulher. Tu verás.

vingança

Uma semana depois, Antunes telefona para Chagas: "Olha, eu soube, pela tal

pessoa, que tua mulher, hoje, às quatro da tarde, vai ao Leblon." Às três horas, os

dois partiam, de táxi, para o local. Durante a viagem, Chagas ia dizendo, numa

obsessão: "Por que não me deixaste iludido? Ela me enganaria sempre e eu não

saberia nunca!" Ria, entre lágrimas: "Nenhum marido precisa saber! Saber pra quê?"

E confessava: "Eu nunca farei nada contra minha mulher, nunca! É absolutamente

sagrada para mim. Porque não me deixaste ser traído, em paz?" O outro respondeu,

lacônico:

— Sou teu amigo — e repetia: — Ponho o amigo acima de tudo.

Às quatro horas, Chagas estava, no táxi, espiando a porta central do edifício.

Viu quando a mulher descia, de outro táxi, acompanhada. A seu lado, Antunes exultou:

— E agora? Viste ou não viste com teus próprios olhos? Não foi batata o que

eu te disse? Foi ou não foi?

Então, arquejante, a boca torcida, Chagas virou-se para o delator. Disse:

— Eu te perdoaria se tivesses mentido, se tivesses caluniado. Mas não mentiste,

nem caluniaste. Disseste a verdade. E eu não te perdôo a verdade.

Deu-lhe dois tiros, à queima-roupa. E ainda puxou o gatilho, uma terceira

vez, para acabar de matar o homem que não mentira.

Antonin Artaud

O JATO DE SANGUE, de Antonin Artaud

(Tradução de Luís A Correa. Revistas Cadernos de Teatro)

O Mocinho - Eu te amo e tudo é belo.

A Mocinha - (Com um trêmulo intensificando na voz) Tu me amas e tudo é belo.

O Mocinho - (Num tom um pouco mais baixo) Eu te amo e tudo é belo.

O Mocinho - (Bruscamente, abandona a mocinha) Eu te amo. (Silêncio) Fica na minha frente.

A Mocinha - (Mesmo jogo, Ela se coloca à sua frente). Está bem.

O Mocinho - (Num tom exaltado, super agudo). Eu te amo, eu sou grande, eu sou claro, eu sou pleno, eu sou denso.

A Mocinha - (Num tom super agudo). Nós nos amamos.

O Mocinho - Nós somos intensos. Oh, como o mundo está bem estabelecido! (Silêncio, se ouve como o barulho de uma imensa roda que gira e desempenha o vento. Um furacão os separa. Neste momento se vêem dois astros que se entrechocam e cai uma série de pernas em carne viva com pés, mãos, cabelos, perucas, máscaras, colunas, pórticos, templos, alambiques. O desmoronamento é feito aos poucos, lentamente, como se tudo caísse no vazio. Caem ¿ ainda três escorpiões, um atrás do outro, depois uma rã e um escaravelho com uma lentidão desesperadora, nojenta).

O Mocinho - (Gritando com todas suas forças). O céu ficou louco! (Olha o céu). Vamos sair correndo! (O mocinho empurra a mocinha de sua frente. Entra um cavaleiro da idade média com uma armadura enorme seguido por uma ama que segura os seios com as duas mãos e respira graças a seus seios muito inflamados).

O Cavaleiro - Larga tuas mamas! Me dá meus papéis!

A Ama - (Gritando). Ah! Ah! Ah!

O Cavaleiro - Merda! Que que há?

A Ama - A nossa filha! Lá! Com ele!

O Cavaleiro - Psiu! Não tem menina nenhuma!

A Ama - Eu estou te dizendo que eles estão se beijando!

O Cavaleiro - Porra! Que merda eu tenho a ver se eles estão se beijando?

A Ama - Incesto!

O Cavaleiro - Matrona!

A Ama - (Afundando as mãos nos bolsos que são tão inflados quanto os seios). Cafetão! (Joga-lhe rapidamente seus papéis).

O Cavaleiro - Vaca, me deixa comer. (A ama foge. Ele levanta e dentro de cada papel tira um enorme pedaço de queijo. Tosse e engasga). Ei! Ei! Mostra os peitos. Mostra teus peitos! Onde ela foi? (Sai correndo, o mocinho volta).

O Mocinho - Eu vi, eu fui, eu compreendi. Aqui na praça pública: o padre, o sapateiro, os vendedores, os vendedores de quatro estações, a porta da igreja, a lanterna do bordel, as balanças da justiça! Eu não posso mais! (Um padre, um sapateiro, um bedel, uma puta, uma juíza, uma vendedora de quatro estações chegam em cena como sombras).

O Mocinho - Eu me perdi dela! Devolvam!

Todos - (Num tom indiferente). Qui, qui, qui.

O Mocinho - Mas ela é minha mulher!

O bedel - (Muito Barrigudo). Sua mulher... Farsante!

O Mocinho - Farsante! Farsante é a tua!

O Bedel - (Batendo na testa). É, pode ser. (Sai correndo). (O padre se destaca do grupo e passa o braço em volta do pescoço do mocinho).

O Padre - (Como num confessionário). A que parte de seu corpo você faz, freqüentemente, mais alusão?

O Mocinho - Deus.

O Padre - (Desconcertado pela resposta, toma rapidamente o sotaque suíço). Mas isso não se faz mais! Eu não ouvi nada da sua boca. Como penitência você tem que invocar aos vulcões, aos terremotos. Nós vivemos das pequenas sujeiras dos homens nos confessionários. E agora é tudo, é a vida.

O Mocinho - (Muito agitado). Ah, sei, é a vida! Então preciso sair correndo.

O Padre - (Sempre com sotaque suíço). Amém. (Neste instante, num só golpe, se faz noite em cena. A terra treme. O trovão ruge, com relâmpagos que fazem zig-zag em todos os sentidos e nos zig-zags dos relâmpagos se vêem todos os personagens que começam a correr: abraçam-se uns aos outros, caem na terra, se levantam e correm como loucos. Neste momento uma mão enorme arranca a peruca da puta que se incendeia às vistas do público). (Uma voz gigantesca) Cadela. Olhai vosso corpo! (O corpo da puta aparece absolutamente nu e horroroso com um corpete e uma saia que se transformam como em vidro transparente).

A Puta - Deus! Me deixa! (A puta morde os punhos de Deus. Um imenso jato de sangue rasga a cena e se vê através dos relâmpagos maiores que os outros o padre fazendo o sinal da cruz. Quando a luz se refaz, todos os personagens estão mortos e seus cadáveres jazem por todas as partes, no chão. Só restam a puta e o mocinho que se comem em olhares. A puta cai nos braços do mocinho).

A Puta - (Num suspiro e como ao extremo ponto de um espasmo amoroso). Conta pra mim como foi pra você. (O mocinho esconde a cabeça com as mãos. A ama volta trazendo a mocinha nos braços como um pacote. A mocinha está morta. A ama deixa a mocinha cair na terra onde ela se quebra e se torna pálida como uma bolacha. A ama não tem mais seios. Seus seios estão completamente achatados. Neste momento aparece o cavaleiro que se atira sobre ela e a sacode violentamente).

O Cavaleiro - (Com uma voz terrível). Onde você escondeu? Onde você escondeu? Me dá o meu queijo! Onde está?

A Ama - (Alegremente). Aqui. (Levanta as saias. O mocinho quer correr, mas não consegue: ele se congela como uma marionete, petrificado).

O Mocinho - (Como suspenso no ar, com voz de ventríloquo). Não faça mal a mamãe.

O Cavaleiro - Maldita. (Cobre o rosto de horror: uma multidão de escorpiões cai da saia da ama e começa a pular em seu seio que pega fogo e se racha, tornando-se vidrado e brilhante como um sol. O mocinho e a puta fogem como dois trepanados).

A Mocinha - (Levantando, maravilhada). A virgem! Então era isso o que ele queria.

PANO

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Nós construimos BONECOS!



CONFECCIONASSE TODO TIPO DE BONECOS!!!

Alguns Exemplos:












ENTRE EM CONTATO




















Bonecos Bandolla apresenta: