amigo de infância
de Nelson Rodrigues
Quando soube que o Antunes
estava, de táxi, na porta, desceu para o avisar:
— Mas olha: eu estou assim, de pijama, e ainda vou tomar banho.
Antunes, fumando de piteira, entra, senta-se:
— Não faz mal. Eu espero. Mas chispa.
— Agüenta a mão.
O outro ficou, na sala, lendo jornal. Debaixo do chuveiro, esfregando-se briosamente,
Chagas perguntava a si mesmo: "Que será?" Tomou o banho e vestiu-se,
num tempo recorde. Antes de descer, já pronto, num terno branco, comentou para a
mulher, baixo: "Estou achando meio esquisito esse negócio do Antunes aparecer,
aqui, cedo. É alguma complicação!" Julinha fez um ar de nojo:
— Sabe que eu acho o Antunes tão chato!
— Que o quê! Ótimo sujeito! Meu amigo até debaixo d'água!
Mas Julinha, peremptória como são as mulheres nas suas antipatias, ainda
resmungou: "Um falso!" Cinco minutos depois, Chagas instalava-se no táxi do
Antunes, lado a lado com o seu maior amigo. Curiosíssimo, indaga:
— Qual é o drama?
o drama
Colocando outro cigarro na piteira, Antunes responde com uma pergunta:
— Confias na tua mulher?
— Como?
— Pergunto se confias na tua mulher.
Pálido, encarava Antunes. Pausa. Interpelou o amigo:
— Mas que palpite é esse? Por que essa pergunta?
Antunes não respondeu imediatamente. Com o dedo de mindinho, batia na
cinza do cigarro. Sereno, e metódico, começou:
— Bem. O negócio é o seguinte. Tu sabes que és meu do peito, não sabes?
— Toca o bonde.
Continuou:
— E eu sou um sujeito nessas condições: se há uma coisa que eu levo a sério,
na vida, é a amizade. Pra mim, o amigo está acima de tudo. Acima de dinheiro, de
mulher e outros bichos. E eu soube de um negócio e...
Trincando os dentes, Chagas exigiu:
—Desembucha.
E Antunes, implacável:
— Chagas, tudo me faz crer que tua mulher, que Julinha, te trai.
Durante uns dois, três minutos, houve um silêncio entre os dois. Chagas repetia
mentalmente: "Julinha me trai... Julinha me trai..." Súbito, vira-se para o amigo.
Está branco:
— Quero provas.
— Provas, como?
Repetiu, na sua cólera contida:
— Provas. Você acusa minha mulher. Muito bem. Deve ter provas. Onde
estão?
O outro parecia desconcertado:
— Mas, Chagas! É muito difícil provar essas coisas. Só se eu fosse olhar pelo
buraco da fechadura.
Chagas insistia, numa calma apavorante:
— Se você provar, muito bem. Mas se não provar, eu juro, por tudo, por essa
luz que me alumia, você está desgraçado comigo.
Quando saltaram, no mesmo lugar, porque trabalhavam no mesmo edifício,
Antunes suspirou:
— Escuta, Chagas. Você faça o que quiser. Cumpri meu dever e pronto.
os inimigos
Era o fim de uma amizade que durava, ao longo dos anos, desde a infância.
Chagas entrou no emprego doente. Pensava: "Devo estar com febre." Sentado na
cadeira giratória, procurava reconstituir, de cabeça, toda a sua vida conjugai. Numa
meditação ardente e obstinada, tentava lembrar-se de um gesto, de uma palavra, de
uma frase de Julinha que pudesse sugerir a existência de um amante. Sua memória,
porém, não a acusava de coisa alguma. Quatro anos depois do casamento, a pequena
era a mesma mulher, sempre igual a si mesma, duma ternura que não mudava. Na
hora do lanche, Chagas vira-se para um companheiro. Faz a confidência gratuita:
— Pela primeira vez, eu conheço o ódio. Pela primeira vez, eu sei o que é odiar.
E, de fato, odiava Antunes. Por outro lado, descobria que há no ódio mais
obstinação, mais exclusividade, mais fidelidade do que no amor. Só se pode odiar
uma pessoa. E Chagas pensava em Antunes, segundo a segundo, minuto a minuto.
Nessa tarde, saiu mais cedo e desceu ao andar onde o outro trabalhava. Sentou-se a
seu lado. Perguntou:
— Aquilo que tu me contaste. Tens certeza ou é desconfiança?
— Certeza.
— Absoluta?
— Absolutíssima.
Devia bastar. Mas Chagas teimou:
— Certeza como? Certeza por quê? Tu mesmo não disseste que, certeza,
nesses casos, só mesmo olhando pelo buraco da fechadura?
Antunes pôs-lhe a mão no ombro:
— Eu não olhei pelo buraco da fechadura, claro. Mas...
— Fala!
Baixou a voz:
— Mas vi, com meus próprios olhos, eu vi tua mulher entrando num lugar
assim, assim, no Leblon.
Chagas ergueu-se. Andou de um lado para outro. Sentou-se, outra vez. E quis
saber: "Explica uma coisa. Por que me contaste isso? Por quê?" O outro foi lacônico:
— Achei que era meu dever de amigo.
Desesperado, protestou:
— Dever como? Dever por quê, carambolas? Oh, tu não sabes que minha
mulher é tudo para mim, absolutamente tudo?
Antunes inclinou-se. Sem desfitá-lo, explicou:
— Eu não quis que bancasses o palhaço. Por isso contei.
a prova
E, então, a vida de Chagas mudou por completo. Não fazia a barba, não tomava
banho, não mudava a camisa. Perdera todo o capricho; ou, por outra, só caprichava
no desleixo. Tinha uma espécie de orgulho, de vaidade, de parecer um maltrapilho,
um miserável. Minha, impressionada, pedia: "Faz a barba, ao menos, criatura!" Ele
ria, amargo; respirava fundo:
— Há coisas mais importantes do que a barba!
Todos os dias, conversava com Antunes, embora o odiasse cada vez mais.
Uma tarde explodiu:
—Ah, se isso fosse uma calúnia, uma mentira tua, sórdida!... — soluçava: —
Eu te agradeceria, de joelhos, se tivesses mentido, se tivesses caluniado a minha
mulher!
O outro encarniçava-se:
— É verdade! Juro que é verdade! Quero que Deus me cegue se minto! Tens
que tirar esta mulher de tua vida! Não admito que um amigo meu banque o palhaço!
Rápido, Chagas levantou-se. Segurou o outro pelos dois braços e o sacudia:
"Eu só acredito vendo! Tua palavra não basta!" Sem medo, com uma determinação
de amigo fanático, Antunes replicou:
— Eu incumbi uma pessoa de acompanhar os passos de tua mulher. Tu verás.
vingança
Uma semana depois, Antunes telefona para Chagas: "Olha, eu soube, pela tal
pessoa, que tua mulher, hoje, às quatro da tarde, vai ao Leblon." Às três horas, os
dois partiam, de táxi, para o local. Durante a viagem, Chagas ia dizendo, numa
obsessão: "Por que não me deixaste iludido? Ela me enganaria sempre e eu não
saberia nunca!" Ria, entre lágrimas: "Nenhum marido precisa saber! Saber pra quê?"
E confessava: "Eu nunca farei nada contra minha mulher, nunca! É absolutamente
sagrada para mim. Porque não me deixaste ser traído, em paz?" O outro respondeu,
lacônico:
— Sou teu amigo — e repetia: — Ponho o amigo acima de tudo.
Às quatro horas, Chagas estava, no táxi, espiando a porta central do edifício.
Viu quando a mulher descia, de outro táxi, acompanhada. A seu lado, Antunes exultou:
— E agora? Viste ou não viste com teus próprios olhos? Não foi batata o que
eu te disse? Foi ou não foi?
Então, arquejante, a boca torcida, Chagas virou-se para o delator. Disse:
— Eu te perdoaria se tivesses mentido, se tivesses caluniado. Mas não mentiste,
nem caluniaste. Disseste a verdade. E eu não te perdôo a verdade.
Deu-lhe dois tiros, à queima-roupa. E ainda puxou o gatilho, uma terceira
vez, para acabar de matar o homem que não mentira.
